O que tem pra hoje?

Tem dia que tem manga, em outro dia tem morango. Tem dia que tem jaca, caqui, pêssego…Em outra época tem uva, tem maçã.

Quando estou em contato com a Natureza fica claro para mim que o que tem no dia é o que tem no dia. Se tem goiaba e manga, é isso que tem. Não adianta brigar com as árvores, com a terra, para que tenha amora…simplesmente, não tem! Não está disponível.

Um tempo atrás convidei uma amiga para passarmos uma tarde juntas. Ela me disse: “Ai Cá, melhor não, hoje não sou uma boa companhia, estou triste”. Perguntei para ela se estava presumindo que eu queria estar com ela de uma forma específica, por exemplo “só se ela estivesse feliz e contente”. Chegamos a diversas conclusões: ela queria se certificar que eu fosse também ouvida e cuidada e na situação que ela estava não iria rolar me dar nada além da dor dela. Precisava também de espaço para estar com essa dor e dependendo do que a gente decidisse fazer, o local poderia não contribuir. Enfim, vimos muitos outros pontos. Mas o que mais chamou minha atenção e que eu curti dessa situação foi a de criarmos a “séria brincadeira”: “o que tem pra hoje?”. E de combinarmos de estarmos disponíveis para o que a nossa terra interna está dando.

E desde então, quando nos falamos, brincamos: “Nossa amiga, hoje tem jaca, viu?”, “hum…um maracujá doce”, “mamão papaia”. E por aí vai…

E continuo me indagando sobre como lido com as plantas e comigo mesma e as pessoas a minha volta. Quando acordo e me lembro de me perguntar: “o que tem pra hoje?” E me permito checar o que de fato tem, o que de fato está disponível. Entrar em contato com a Natureza em mim e junto com isso me manter curiosa sobre meus estados, o que se passa em mim durante o dia. E essa brincadeira com as frutas vai me ofertando uma leveza nesse processo de ir me des-cobrindo. Como quando a gente olha pela primeira vez uma floresta e só vê floresta ou mato, e aí, observando, vai começando a nomear as flores, as árvores, os arbustos, vai enxergando mais.

Às vezes preciso aprender a olhar de novo aquilo que acho que conheço muito bem, porque muitas vezes está dando coisa nova e eu nem vi!

Às vezes, eu dou xuxu pela manhã e a tarde dou laranja…varia muito.Tem dias que estou praticamente uma agrofloresta!

Tenho curtido muito a possibilidade que essa forma de ver me trás: a de me permitir estar como estou, de aceitar a fruta que vêm, seja ela qual for. Às vezes é amaaaarga! Outras, tão doce. E não só a fruta que eu estou dando, também as que estão me ofertando. E que eu escolho receber, ou não.

Vale também lembrar que para cultivar e estarem disponíveis, as espécies de frutas estão conectadas com a terra, com o clima, se chove, se faz sol. E comigo parece que é assim também: o que tenho disponível para doar é altamente influenciado pelo contexto em que estou. Tenho gostado de olhar para o contexto e me perguntar se tenho adubo suficiente, se preciso de mais água ou menos água, de sol ou de cuidado humano.

Hoje uma querida amiga me escreveu contando o que ela tinha para hoje. Foi tão gostoso ler e reconhecer a importância que essa pergunta tem tido na minha vida. Agradeço por isso.

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O certo, o errado e os experimentos

Tenho dedicado um tempo para estar com os seres humanos que chamamos “crianças”. Estar com elas mesmo. Me permitir estar na presença delas e ver o que acontece. A proposta tem sido estar lá e ficar com o que surge, sem esperar, propor ou buscar nenhum resultado, simplesmente estar.

Hoje uma delas, de dois anos, me chamou: “Carol, vamos brincar”. Me pegou pela mão e me levou até o quarto de brinquedos. Lá, nós duas sentamos na esteira. Ela olhou os livros, abriu um deles, apontou um galo e disse: “cocó”. Foi então mexer em um brinquedo de madeira que apresenta diversos animais e que podem ser retirados da base de madeira e encaixados novamente. Os animais tinham recortes, na minha opinião, um tanto detalhados e complexos para uma criança de dois anos. Me percebi pensando isso e ficando um pouco insegura sobre ela conseguir brincar com aquele brinquedo. De qualquer forma, continuei me observando e observando ela brincar com o brinquedo. Cada um dos animais tinha uma parte menor que a base de madeira a qual se encaixava. Lá cabia um dedo direitinho para retirar o animal.

Primeiro ela retirou alguns animais sem utilizar essa parte. Ela colocava a unha entre o animal e a base de madeira e retirava o animal. Os dois últimos, depois de uns dois minutos tentando, ela não conseguia retirar. Falei para ela: “tem essa parte aqui que encaixa o dedo”. Ela colocou o dedo lá e retirou primeiro um animal e depois o outro que faltava para, então, começar a recolocá-los. Vira e mexe ela olhava para mim, enquanto tentava, às vezes com força, às vezes indecisa, encaixar de ponta cabeça o animal na base. Às vezes dizia: não consigo. E continuava tentando.

Nesse momento percebi em mim uma agitação e uma vontade de mostrar para ela como fazer. Diferente do momento anterior, que veio tranqüilamente  o mostrar para ela a parte de colocar o dedo.

O diferente era a minha sensação interna: na primeira, simplesmente veio a fala. Nessa vez agora, me percebi angustiada por ela não estar conseguindo encaixar o animal. Vinha uma irritação, junto com a vontade de falar para ela: “Não é assim, você precisa virar o animal…veja…”.

Continuei observando isso em mim e a observando, sem falar nada. Depois de uns dois minutos mais ela encaixa o primeiro animal. E aí segue para o segundo, para o terceiro… No quarto animal ela fica tentando coloca-lo de ponta cabeça, vejo ela não entendendo porque não encaixa. Olhando…observando. Nesse momento, apareceu a seguinte frase na minha cabeça: “Jeito certo de encaixar, jeito errado de encaixar…pra quê? Pra quê estragar os experimentos e o processo de desenvolvimento e aprendizagem dela com a ideia de que eu sei o jeito certo e que vou ensina-la?”.

Ela então coloca a base e os animais de lado e pega um sapo de pelúcia e me diz: “ sapo esse. Ele canta.” E aperta a barriga dele. Depois de alguns segundos olha para mim e diz: “aperta ele aqui pra mim?” Eu pego o sapo e aperto sua barriga. Começa a sair uma música. Ela canta, eu canto e a gente sorri.

As brincadeiras se seguem…e me vêm uma gratidão profunda pela Vida em nós, chamados “adultos”, e neles, chamados “crianças”, que sabe o que precisa para se desenvolver e que sabe também, a hora de pedir ajuda, de parar para voltar outro dia…

E reforço o meu comprometimento e a intenção de ser uma testemunha da Vida em nós, fluindo com a Vida, sem querer concerta-la, arruma-la ou qualquer coisa próxima a isso, que foque em um resultado “eficiente” (pelo menos aos meus olhos).

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Eu não sei…E como pipocas

19 de outubro de 2012

 

Eu não sei, simples assim. Assumo. Não sei. E vivo. Viver sabendo que não se sabe, dói. Cada instante é um, novo e fresco. E porque dói? Porque não fui ensinada (ou deixada) a viver assim, no agora, na eternidade. Me ensinaram e eu aprendi muito bem a planejar, organizar e a fingir muito bem para os outros e para mim mesma que sei. Até realmente acreditar. Então, o que faço agora com o não saber e a vida inteira se derramando? Dôo, aceito a dor, sento com ela, choro, sinto ela inteira. Dói não saber, estar perdida. E talvez doa justamente porque esperava o contrário de mim mesma. E agora vejo o que é. E me conecto estranhamente com o Amor sob tudo. Respiro e é mais fácil. Ainda não confortável (se é que um dia será), mas a dor se encaixa no que é, e outras cores também se mostram presentes. Seria bom dormir e acordar outra. E acordo, acordamos. Mas algo me prende e não vejo, não celebro, dôo. Talvez também tenha aprendido a doer. Porque é estar vivo. Bem clara a vida no corpo quando dói. Quero perceber a vida sem precisar da ajuda da dor. Possível? Provavelmente. Missão para uma vida, esta vida? Não sei.

Ai…o que fazer quando não se sabe? Escolho fazer pipocas, pois é a única coisa que eu sei que quero agora. E é tranqüilo querer pipocas. E é simples ver a vida em milhos estourarem ao calor do fogo e comer pipocas recobertas em sal. Talvez não tão saudável, mas por agora possível, realizável e tranqüilo.

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“Culpado, por isso merece sofrer”

Texto previamente publicado em “Outras Palavras

 

Percebo que o sistema de punição-e-recompensa é cruel, primitivo e ineficaz. Quero que a gente se liberte disso. Mas como?

Por Carolina Lemos Coimbra, editora de AtoVivo | Imagem: Culpa, de Maya Kulenovic (site)

Ele foi considerado culpado. Por isso estava lá. Era culpado, claro. Tinha cometido o que chamamos de estupro. “Estuprou a namorada”, disseram. Estava com 16 anos. Lá, ninguém falava com ele. Era a lei. Ninguém nem olhava para ele. Quer dizer, alguéns olhavam. Alguéns falavam. Educadores, psicólogos e seguranças falavam e olhavam. Os adolescentes evangélicos também. “Eles levam a palavra de Deus, podem falar com todo mundo”, essa era a explicação. Os outros não. “O pior crime de todos”. “E se fosse sua mãe, sua irmã?”. “Ele merece sofrer”.

Um dia, festa de primavera na Febem (atual Fundação CASA). Aquele dia em que se pode brincar, comer comida diferente e ficar na quadra o dia todo. Dia de alegria. Chego e vou direto para a quadra. Na entrada, o vejo sentado do lado de fora da porta, cabeça entre os joelhos. Ouvia-se música e risadas vindo de dentro da quadra.

Entro na quadra, converso com amigos. Passa uma hora e ele continua lá. Vou falar com ele, chamo pelo nome, nem levanta a cabeça. Me abaixo, tento de novo. Uma das psicólogas me chama e diz “não…deixa ele aí” e me conduz para o outro lado da entrada, distante o suficiente para que ele não ouça nossa conversa. Então, segue-se o diálogo:

– O que aconteceu com ele?, pergunto.

– Ele tentou se matar anteontem. Tomou quase um litro de cândida que estava no banheiro. Por isso não vai participar da festa. Decidimos que vai ficar aí do lado de fora. Assim ele ouve toda a diversão e percebe o que está perdendo.

– Ah…assim ele aprende que não vale a pena se matar, né?

– Isso mesmo.

Essa história real, vivida por mim há uns seis anos, ainda não havia sido escrita. Decidi partilhá-la agora num momento em que tenho questionado o nosso sistema de justiça. E questiono especialmente o sistema de justiça que temos dentro de nós. Porque é com esse, em especial, que convivo diariamente e que tenho mais acesso e possibilidade de mudança.

Quando vivi esta situação, não soube o que fazer no dia. Não soube como lidar com a situação. A única coisa que consegui fazer foi ficar lá um pouco e, então, ir embora. Não trabalhei lá por um tempo depois da festa da primavera e não o vi mais. Mas ele continua aqui comigo – ele e esse sistema que me diz que quando a gente é culpado, merece sofrer.

Esse sistema de justiça que diz que existe culpa e que a melhor forma de melhorar o mundo é fazendo a gente odiar a gente mesmo pelo que a gente fez. Continuo não conseguindo entender como isso pode melhorar o mundo. Especialmente porque não consigo ver a minha vida e a minha relação comigo mesma e com as outras pessoas melhorando com este sistema de justiça.

Quando faço algo em minha vida que considero errado, já começa uma fala/pensamento que diz: “que absurdo! Sua idiota! Que coisa mais feia, que coisa horrível! Como você fez isso? Você é horrível mesmo…” e por aí vai…O sistema de justiça que vive dentro de mim começa a me julgar e me avaliar de diversas formas, começando a me definir com palavras como essas. Quando eu já me disse tudo isso, aí ele parte para mais algumas formas de me deixar infeliz. Quanto mais eu sofrer com o que eu fiz, melhor. Então eu posso me privar de rir, de sair à rua, de me divertir com meus amigos…enfim, cabe aí qualquer coisa que eu gosto de fazer e que, como sou culpada, como errei, eu não mereço fazer. Quanto mais miserável eu for, quanto mais infeliz eu me sentir, melhor. Essa é a minha punição. E, dependendo do que eu fiz, posso me punir por toda a vida.

É um sistema simples, que se baseia no mérito, na recompensa e na punição. Quando faço algo considerado bom, bonito, certo, recebo uma recompensa. Quando faço algo mau, feio, errado, recebo uma punição. E tanto a recompensa como a punição estão a serviço de fazer com que eu aprenda e melhore. Aprenda a ser uma pessoa melhor.

Agora, realmente observando isso em mim e nas minhas relações, não me torno uma pessoa melhor. Me torno alguém com mais raiva, tristeza, ódio para comigo e para com os outros. Não faz sentido nenhum quando olho de perto. Faz tanto sentido como o que fizeram com ele na Febem. Será que é só para mim que está na cara que colocá-lo do lado de fora da festa para ouvir e não se divertir não iria aumentar o amor dentro dele, nem a valorização da própria vida e das dos outros, mas o ódio e a raiva? Ah…com certeza ele ia passar a achar a vida maravilhosa dalí pra frente e não ia mais tentar se matar. No dia seguinte iria pensar: “olha eu fiz uma coisa muuuito feia, depois outra mais feia ainda, agora entendo que a melhor coisa a fazer é não fazer coisas feias”. Tão simples, com a punição a gente resolve tudo. Por isso que a cada dia os presídios estão mais vazios. As pessoas são punidas e pronto, melhoram. Não cometem mais o mesmo ato.

Sinto pela ironia. Foi o recurso que encontrei hoje para partilhar a tristeza que sinto por esta situação. E a tristeza que vive em mim quando percebo esse sistema operando em mim e nos outros. E quero me libertar. Quero que a gente se liberte disso, que a gente aumente o amor, a compaixão, que a gente viva em paz. Uma paz de verdade.

Bom, e aí vêm aquela pergunta: e como fazer? E seria lindo eu ter a resposta, não é? Por que afinal eu me disponho a estar aqui para escrever e não ter respostas? Bom, não tenho. Tenho encontrado alguns caminhos. A auto-responsabilização e a restauração têm me levado a lugares com mais felicidade em minha vida. E a gente pode utilizar esse espaço também para a partilha desses experimentos. E eu gostaria de ouvir os seus. E quem sabe a gente vai colecionando perguntas e quem sabe elas nos levam a algum lugar. Porque talvez a resposta nos deixe parados aqui. E eu quero continuar questionando esse sistema e pesquisando formas de criar outro que de fato cuide de algo tão valioso como a justiça. E que cuide de algo tão valioso como a vida e as pessoas. Quero mesmo.

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Existe trabalho involuntário?

Texto originalmente publicado em http://www.outraspalavras.net

 

Parte da libertação de si mesmo—e da plenitude—talvez esteja em saber o que realmente precisamos. A escolha é nossa

“Este trabalho que você está fazendo é voluntário, não é?” A pergunta chegou até mim um dia desses. E, fugindo do lugar comum de não investigar e não utilizar conscientemente as palavras que pronuncio, devolvi com outra pergunta: “O que é voluntário pra você? Se eu responder ‘não’, você vai entender que faço involuntariamente esta atividade, ou seja, que não escolho realizá-la?”

Presumo que a pessoa que me fez esta pergunta se referia à mesma definição para a palavra “voluntário” que utiliza a Organização das Nações Unidas: “Jovem ou adulto que, devido a seu interesse pessoal e ao seu espírito cívico, dedica parte do seu tempo, sem remuneração alguma, a diversas formas de atividades, organizadas ou não, de bem estar social, ou outros campos.”

A questão da remuneração escolho deixar para um próximo texto, em que falaremos sobre dinheiro. Por ora, os convido a investigar a palavra “voluntário”. Ela vem do latim voluntarius, “de própria vontade”, de voluntas, “vontade, desejo”, de velle, “querer”. Isto posto, vem a pergunta: o que fazemos que é voluntário, ou seja, de vontade própria?

Conheço gente que passa a maior parte do seu dia (e, porque não dizer, da sua vida) fazendo o que não quer, o que não tem vontade. Faz porque acredita que é obrigada a fazer — e eu me pego nesta armadilha também. Um dos maiores exemplos que conheço é em relação ao que chamamos trabalho ou emprego. Quem ainda não ouviu ou proferiu: “Não gosto do que faço, mas preciso pagar as contas”?

Li uma vez sobre um livro chamado Absurdos Evidentes. Uma das imagens deste livro é a de um homem carregando uma casa nas costas. Quanta coisa carregamos sem investigar o que nos move a fazê-lo?

Aí vejo amigos criticando chefes e reclamando da vida e me pergunto: qual a escolha que eles têm? Parece que, para eles, nenhuma. Parece que, para eles, as coisas simplesmente acontecem, “a vida é assim”. Mas quem é responsável se a vida é assim? Se ela não muda, não está sendo construída, não tem possibilidade de mudança. Se não somos nós, quem é então que vive nossa vida e muda a nossa vida?

Escolhas 

Há aproximadamente um ano decidi fazer só o que eu quero fazer. Só fazer o que me dá vontade. Parece impossível e improvável, né?

Não vou dizer aqui que é tarefa das mais fáceis. Decidir fazer não é o mesmo que fazer. Muitas vezes, quando me dou conta… lá estou eu novamente fazendo algo que não quero. E como fui parar lá? Percebo que não sei, “sumi” durante um tempo, que estava dormindo (mesmo com olhos abertos) e acabei ali — fazendo algo que “me aconteceu”.

Outras vezes, percebo que contrariei minhas vontades porque estava com medo. Medo de magoar, de não ser querida, aceita, amada. E buscando isso de uma forma na qual presumo que, para ter isso, preciso ser outra pessoa que não eu mesma.

O desafio, para mim, tem sido estar conectada comigo mesma, com a minha verdade, valores e necessidades. Com a vida que pulsa em mim e através de mim. Quando consigo, conheço o que preciso fazer e tenho condições de assumir a responsabilidade e as consequências que decorrem da minha vontade.

Imagine como será a sua vida quando você escolher cada uma de suas ações, quando elas forem voluntárias. A partir de hoje me dá vontade de decretar que todos os trabalhos são voluntários porque as pessoas escolhem fazê-los e os fazem por vontade própria. Mas não me sinto segura, porque não confio que as pessoas de fato os escolham.

Vejo todo o potencial que haveria se eu fizesse tudo o que quero e fico imaginando todas as pessoas no mundo fazendo o que nasceram para fazer e escolhendo viver seu tempo fazendo o que mais lhes toca o coração e a alma. Fazendo o que precisam fazer e pronto.

Acreditei durante muito tempo que eu deveria fazer certas coisas, que era obrigada a fazer. Muita energia, amor, alegria e diversão desperdiçados. Muita vida trocada por manter as aparências.

É claro para mim que manter as aparências e continuar fazendo aquilo que a gente não quer cuida de algumas coisas. Cuida de manter as coisas como estão (para que a gente continue dizendo que elas são assim) e para que a gente tenha segurança e proteção. Acontece que não estou mais disposta a pagar com toda a vida que tenho em mim por essa segurança e proteção. Quero sim segurança e proteção, mas quero também vida.

E já ouço alguém dentro de mim dizendo: “Mas isso seria um caos, minha filha! Cada um fazendo apenas o que quer! Aff! Ninguém respeitaria ninguém!”. E converso com essa voz, perguntando: Será? Porque, talvez, se nos responsabilizamos por nossas escolhas, aí também vêm juntos o respeito, o cuidado e o carinho — que fazem parte da dança da mudança.

Claro que há riscos. O dindim no banco vai diminuindo (o que não significa que será assim pra sempre, já que tudo muda), mas junto com isso volto a reconhecer a palavra comunidade. Volto a reconhecer que preciso de ajuda e de apoio. Volto a olhar para os lados e reconhecer seres humanos. E volto a sorrir e agradecer cada instante livre da minha vida com outras pessoas que também estão buscando sua libertação. E também com quem não a busca, mas que eu escolho estar junto.

Algumas escolhas que a vida me oferta não gosto nem um pouco. Mas só de lembrar e reconhecer que existe escolha. Então percebo o poder que tenho em estar voluntariamente fazendo algo. E um milhão de oportunidades e de outras formas de viver se abrem — imprevisíveis e inimagináveis. É como ouvi de uma amiga: “Ainda bem que não saiu como imaginamos, porque nossa imaginação vê tão pouco às vezes. Ainda bem que a vida nos surpreende.”

E aí quero que a vida que pulsa em mim me surpreenda mais e mais e quero estar atenta para ouvir o que ela me diz para eu fazer. E quero fazer.

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Desculpe, são ordens superiores

Texto originalmente publicado em: http://www.outraspalavras.net/2011/10/28/desculpe-sao-ordens-superiores/

Quero um mundo onde cada um se responsabilize por suas ações. Como viver sem perceber nosso poder de escolha?

Por Carolina Lemos Coimbra

Um dia desses fui ao cinema com uma amiga. Eu não assisti ao filme e a “questão” que me fez não assisti-lo talvez seja assunto para outro texto. O que quero aqui é contar a conversa que tive para tentar assistir ao filme e que ficou muito mais interessante para mim que assistir ao próprio filme.

Em certo momento me percebi conversando com o cara que trabalha na bilheteria e ele me disse que não podia fazer nada a respeito em relação à minha situação e eu perguntei: “Quem pode então?” Então ele chamou o Vitor.

Depois de uns cinco minutos, Vitor sai da bilheteria por uma porta lateral e me pergunta: “Qual o problema?”. Eu lhe explico a minha situação e ele me diz: “Eu não posso fazer nada, não posso abrir uma exceção para a senhora”. Eu lhe digo que estou curiosa em saber o que lhe impede de abrir uma exceção para mim e ele me diz: “São ordens superiores”.

Então, seguiu-se a seguinte conversa:

— Vitor, quero falar então com essa pessoa que tem poder de decisão, que pode me ajudar.

— Eu sou essa pessoa. Não podemos abrir nenhuma exceção.

— Ok Vitor, então eu quero saber seu nome completo. Quero saber quem tomou esta decisão que afeta minha vida e a de outras pessoas. Qual o seu nome completo?

— Meu nome é Vitor. Não vou te dizer meu nome completo. Se não está satisfeita, você pode ligar na reclamação.

— Eu não estou satisfeita mesmo, Vitor. Quero entender como funciona este sistema em que ninguém é responsável. Quem decide as coisas por aqui?

— Tem a Celina, que é a gerente.

— Ok. Qual o nome completo da Celina?

— Eu não posso dizer.

— Chama a Celina aqui para eu conversar com ela, por favor?

Depois de uns quinze minutos chega a Celina.

— Qual o seu problema?

Eu explico a minha situação e ela me diz que pode abrir uma exceção.

— Celina, para mim é importante saber quem está tomando decisões que afetam a minha vida. Você poderia me dizer seu nome completo?

— Não posso te dizer. É Celina e pronto. É isso que está no crachá, veja.

— Tem alguém aqui além de você que é responsável por este cinema e pelas decisões que são tomadas aqui?

— Sim, mas não está hoje.

— Quem é essa pessoa e quando estará?

— Hoje sou eu a responsável. Desculpa, mas o que eu podia fazer já fiz. Casos como o seu passam por aqui diversas vezes por dia. Preciso cuidar de outras situações que estão acontecendo. Não posso te dizer o meu nome completo.

E saiu para cuidar de outros clientes.

Fui procurar uma mesa para sentar e papear com a minha amiga (que durante esse tempo ficou ao meu lado acompanhando a discussão). Indo em direção à mesa, me percebi triste e com indignação. Eu quero viver em um mundo no qual cada um de nós se responsabiliza por suas ações e atitudes. Se são “ordens superiores”, se “não posso fazer nada”, “não posso te dizer isso ou aquilo”, quem pode? Como vamos viver e nos empoderar de nós mesmos e de nossas atitudes e ações no mundo se não percebemos nossa responsabilidade e poder de escolha?

Se não é o Vitor nem a Celina quem decide pelo cinema, quem é? O cinema? E quem está sendo o cinema? Penso ser gente, pessoas como eu e você, a não ser que o cinema tenha virado uma entidade viva. É… uma estrutura. Estrutura que não está mais nos servindo e que passamos a servir sem nos dar conta. E sinto muito medo, medo por não confiar (por experiência própria) que uma sociedade com sistemas assim possibilite com que eu viva como ser humano e me conecte com outros seres humanos.

Será que o Vitor e a Celina se veem como humanos? Que têm responsabilidade e escolha? Me parece que nesse momento eles se sentem inseguros de tomar qualquer decisão em nome próprio e se responsabilizar por elas. Talvez porque “o sistema”, quer dizer, “o cinema” os possa punir.

E eu nesta história toda? Me responsabilizei por cuidar de mim e cuidar da Celina, do Vitor, da minha amiga e do cara da bilheteria? O que eu fiz? Quando decidi pedir o nome completo foi na tentativa de mostrar para eles que para mim é importante que cada um de nós se responsabilize pelo que faz, por suas decisões e escolhas. Foi a estratégia que encontrei naquele momento para isso.

Agora, em um ponto da conversa eu falei para o Vitor que ia escrever uma matéria sobre essa situação, e por isso, precisava do seu nome para colocar como o responsável por aquela decisão. Em outro momento, disse para ele que ia chamar, então, a polícia para resolver a situação. Sinto tristeza e decepção porque nos momentos em que fiquei desesperada e sem saber o que fazer, precisando de ajuda, usei também de poder sobre ele (sou jornalista e posso te ferrar) e quase permiti que usassem de poder sobre mim mesma (a polícia consegue decidir e cuidar disso, não eu, nem você. Olha eu aqui terceirizando minha responsabilidade e escolha, entregando o poder de ação que tenho) .

Meu aprendizado: continuar prestando atenção para investigar formas de poder compara me libertar do poder sobre ou sob.

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Carolina Lemos Coimbra está investigando as relações entre Educação, Comunicação e Não-Violência, especialmente em si mesma. Pode ser encontrada pelo e-mail carolinalcoimbra@gmail.com, em seu blogue Ato Vivo, nas ruas e nesses textos.


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Educação, Comunicação e Não-Violência

Texto originalmente publicado no : http://www.outraspalavras.net/2011/09/30/educacao-comunicacao-e-nao-violencia/comment-page-1/#comment-6218

 

Como nos reeducar para um viver e conviver que nos liberte dos condicionamentos e possibilite estar vivos a cada instante

Por Carolina Lemos Coimbra*

Há alguns anos adquiri um ímã com a seguinte mensagem: “Escrever é um modo de falar sem ser interrompido”, atribuída a Jules Renard. Faz todo o sentido para mim. Quando por diversas razões não consigo me expressar falando, vou logo pegando lápis ou caneta e colocando tudo para fora de mim no papel.

Aí, vez em quando, partilho os escritos, não sem certo relutar. Escrever é colocar o que tenho de mais verdadeiro para fora. Tem um desnudar que é ao mesmo tempo incômodo e necessário.

E a vontade de partilhar vem crescendo. E esta coluna é esse experimento do partilhar.

Minha intenção com este espaço é investigar a Educação, a Comunicação e a Não-Violência, partindo do questionamento: Como podemos nos reeducar para um viver e um conviver que nos liberte dos condicionamentos e nos possibilite estar vivos a cada instante? Olhando para três áreas do nosso viver: a intrapessoal (relação com nós mesmos), a interpessoal (com outras pessoas) e a sistêmica (sistemas e estruturas que criamos para servir a vida e que, às vezes – mais do que eu gostaria – não servem mais e passamos a servi-los).

São investigações e estudos sobre esta questão nessas três áreas que a cada quinze dias pretendo falar sem ser interrompida aqui neste espaço. Digo que é minha intenção, porque não sei se irei de fato fazer isso. Vamos deixar rolar e ver o que vocês, leitores, trazem também para também compor esta música.

E se escrever é falar sem ser interrompida, e quando as pessoas falam e já não aguentamos mais ouvir? Talvez por isso me agrade o escrever. Existe uma liberdade já dada de parar de ler assim que o leitor quiser. Já com a fala…

Semana passada, por exemplo, estava em uma sala de aula. A pessoa que estava no papel de educadora começou a contar a história da metodologia que desenvolveu e que irá nos levar a vivenciar durante suas aulas. A história ia lá longe no passado…e a pessoa no papel de educadora falava e contava suas experiências com diversos detalhes. O meu colega ao lado no papel de educando começou a desenhar no caderno e a suspirar. Conforme o tempo ia andando ele se mexia cada vez mais até que seus pés começaram a bater repetidas vezes no chão.

Imagino que ele não estava mais interessado no que a pessoa no papel de educadora estava falando. Porém, em nenhum momento dos 30 minutos seguintes, meu colega partilhou isso com a turma. Pergunto então: o que está dado em nossa sociedade que faz com que aceitemos ficar 40 minutos ouvindo alguém que não queremos mais ouvir?

Já ouço algumas pessoas falando: “Educação, oras…Não é educado interromper”. Bom, neste caso, interromper me parece que serviria a vida deste sendo humano que estava sentado ao meu lado. E provavelmente a da pessoa no papel de educadora. Gostaria de saber de você que me lê agora: se alguém te escuta e não está mais te acompanhando (seja por que não faz mais sentido para ela, seja porque algo em sua fala chamou a atenção dela e ela está viajando em algo dentro dela que ressoou sobre isso, seja por qualquer outra razão), você gostaria que ela partilhasse isso? Não consigo imaginar alguém que preferiria ficar falando “para paredes” e acreditando que está contribuindo com sua fala quando não mais o está.

Então, porque continuamos a servir esta tal educação que nos diz que não devemos interromper? Interromper me parece ser uma atitude de servir à vida, para que ela continue fluindo onde parou de fluir…

Talvez possamos também nos perguntar: como interromper cuidando de quem está falando? E isso provavelmente nos levará para um outro texto…

Ouvi outra frase esses dias: “Fique em silêncio ou faça com que suas palavras valham mais que o silêncio”. Finalizo na esperança que esta minha partilha tenha mais valia que o silêncio e uma página em branco, que contém em si todas as possibilidades.

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Carolina Lemos Coimbra  está investigando as relações entre Educação, Comunicação e Não-Violência, especialmente em si mesma. Encontra-se pelo e-mail carolinalcoimbra@gmail.com, no blog atovivo.wordpress.com , nas ruas e nesses textos.

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